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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Bechepeche


A Tinta Infernal de Clara Dawn - Por Mário Jorge Bechepeche




Em Clara Dawn não se exaurem nunca as modulações e acrobacias transformistas que dão ao texto um revoante cenário de abstrações e múltiplos rituais expressionistas.

Na abrangência generalizada de suas publicações anteriores, rastreiam-se conotações que podemos alinhar em itens que vinham aflorando em crônicas e romances: capacidade ilimitada de reformular a estrutura convencional de muitas figuras de estilo, como faz com a metáfora, amplificando-a linguisticamente.

Dessa maneira comparativa entre duas palavras, como é a forma usual, ela cria primeiramente um enovelado de ideias que levam o leitor a sugestões e expectativas de inúmeras imagens já admitidas antes como definitivas em suas intenções sugeridas, mas o arremate do texto, em contraponto a tudo que se estabeleceu, culmina num fecho de ambivalência, de paradoxo surreal, às vezes levando, isto sim, o leitor a um solilóquio desconcertante e inusitado.

A versatilidade, que é o seu fundamento principal e que resultaria na pletora mirabolante de estesias em “O Cortador de Hóstias”, irrompe também adotando Chaplin como símbolo e patrimônio canônico de arte trêfega e multivária.

Passa sua prosa nos moldes de narração contrapontista e de incursões incompletas definidas de um romance entre ensaísmos literários de psicologia, mesclado de lances policialescos figurados. Atenta-se que este gérmen, agora em afloramento, geraria um fantástico e inédito (na literatura brasileira) parâmetro literário, como foi criado em “O Cortador de Hóstias”.

Clara Dawn tem a primazia do circunlóquio elaborado com exclusiva chancela pessoal, que se distingue, neste item, de Joyce, Proust e Virginia Woolf (aproximação, aliás, elegantemente expressa em “Um olhar estrangeiro sobre a obra de Clara Dawn”, na crítica hiperconsciente de Fátima Santana (Portugal) e endossada por Reynaldo Jardim, que a nomeou como a Clarice Lispector de Goiás. Isto porque a incursão desses fatores na técnica de monólogo interior em 1887 com “Les lauriens Sont Coupés”, em Joyce, por sua impetuosidade criadora, se faz em torvelhinho de entrechoques fráseos, em Proust, se conduz o fluxo subjetivista dentro da caixa craniana do leitor e em Virginia Woolf os objetos se pulverizam em abstrações da sentimentalidade.

Já em Clara Dawn, esta escrita automática é revestida de outras dimensões que a formam e a fazem rica de facetas porque a autora converge na sua trama, com sutileza de prestidigitadora, arrebanhamentos e fractais, como se transplantados e arrolados de outras fontes, além de evolver a narrativa também em contrapontos, os quais ainda resultam em efeito que será focado mais adiante, criadores de uma característica literalmente inédita na ficção policial. É óbvio, ainda, que a criptografia é da essência subjetivista desse fluxo de pensamento que ,assim condimentado por todos esses ingredientes em fusão no texto, personalizam a exclusiva modulação estética de Clara Dawn. Aliás, salta aos olhos a reformulação estilística a que se obrigou com a faiscação merídia da linguagem em processo de eurritmia da frase, no cadenciamento da sonoridade vocabular pelo repique fonemático de feliz harmonização, construindo-se um dos esteios de estilização em um texto que usa uma estrutura estetizante múltipla de facetamentos. Estes, por exemplo: nas páginas 15 e 46, a fusão do imagético ao organoléptico aromático consegue aquela proeza que Manuel Bandeira fazia recender em seus poemas, que, segundo Agripino Grieco, tinha o cheiro de carne feminina. Na página 25, usufrui da oralidade goiana e cria um capitoso naco escritural que nada deve aos soberanos e insuplantáveis textos de Bernardo Élis.

O realismo fantástico que repercute ao longo do romance ganha matizes dissímeis do modelo clássico. Este, geralmente, em fantasias lantejouladas e alegorizadas, mas quase sempre narradas somente pelo autor. Enquanto que “O Cortador de Hóstias” revela um tríplice artesanato de acrobacia escritural: o autor, um narrador e a própria personagem incrivelmente tramam o texto. Não há como não dizer uma genialidade arisca e esquipática de Clara Dawn... pois consegue esta mixagem com um conglomerado de fundamentos da estilística: torvelinha a linguagem e as imagens, surde criptografias e técnica operatória, desata o fluxo de consciência libertária libertina por uma escritura com e sem sequência (contrapontos), fragmentária e interrupta, encadeando o natural com o sobrenatural etc. etc.
Entretanto, não é só este aspecto remodelador do tipismo padrão do realismo mágico que a maleabilidade transliterante de Clara Dawn irradia: também comparece o caráter clássico desse cânone estético nas páginas 23, 49 e 50 (alguns exemplos são Balzac, Erico Curado, Veiga Vale, aqui respectivamente tornados ficção), além disso ainda ressoando características que o universo inesgotável do realismo fantástico propicia, a descrição em que aparece o natural difuso no sobrenatural compõe imagens de martírio rembrandtdantes nas páginas 40 e 57, sendo esta última um medalhão surrealista em pavor e tintas infernais a la Dante Alighieri.

Nem o ensaísmo literário faltou no elenco de simbolizações, uma vez que “O Cortador de Hóstias”, a partir da página 110, ensancha a dolente atmosfera do romance para focar o patrimônio histórico de Pirenópolis. É óbvio que o livro não é um gênero literário do tipo romance policial. Contudo, pelo seu excepcional dispositivo temático-escritural, pelas ações esquipáticas da personagem central, pelo eixo contrapontístico dos capítulos (o que é o suporte fundamental do policial legítimo), indo tudo confluir em desfecho típico de estrutura detetivesca, compulsa uma fantasmagórica encenação de sherlockismo estético que nos leva a afirmar que Clara Dawn criou o policial mental. Neste torvelinhoso painel imaginário de “O Cortador de Hóstias”, a ascensão estilística atinge várias vezes a dimensão de página antológica com sagaz paleta descritiva de paisagem feérica em ouro e luz... e Clara Dawn fulgura incontestavelmente como consagração de primeira linha na ficção nacional.
Mário Jorge Bechepeche é médico e crítico literário. 



Lançamento do romance O Cortador de Hóstias – da escritora Clara Dawn




“O Cortador de Hóstias” é o oitavo livro da escritora Clara Dawn*, sendo o terceiro na categoria romance.


 É ambientado em Pirenópolis, Goiás, em 1918, e a história é contada por três narradores-personagens e um narrador-observador.A trama se divide em quatro partes: a primeira se desenrola segundo a visão da protagonista, a vingativa Flor Maria, possuída pelo ódio por causa dos abusos sexuais sofridos na infância. Ela elabora um plano para matar o seu algoz.
A segunda parte é epistolar, na qual o personagem Venceslau escreve cartas, jamais enviadas, para sua amada morta. O “reverendo Vence” é seguido por um grande séquito que o adora e é por ele adorado, mas até mesmo no paraíso há serpentes. 
A terceira é a narrativa do observador, aquele que julga os atos dos personagens segundo a influência que cada um deles sofre. É possível que o narrador-observador possa também se emocionar e se injuriar, precipitar-se e até mesmo enlouquecer diante das premissas dadas, perdendo-se, assim como os personagens, entre realidade e divagações. Para o narrador-observador, coisa alguma é o que parece ser.
A quarta parte é descolada das narrativas: o suposto cortador de hóstias, num diálogo invisível com um delegado, tenta justificar seu estranho hábito de bolinar garotinhas. 

Trata-se de um romance envolvente repleto de mistérios, suspense e até momentos que vão do hilário ao desconfortável em mais de um sentido.  Reflete a influência do sincretismo religioso vigente na época e das lendas da história de Pirenópolis. A personagem principal é uma espécie de Santa Dica às avessas. Em todo o processo narrativo, é possível encontrar traços da Prima Bete de Honoré de Balzac. Até mesmo os nomes da maioria dos personagens são tributos ao escritor francês, como o cavalo Melmote Apaziguado, o mendigo Onagro e a cafetina Valéria Marnefe. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Clara Dawn, a double-face da crônica – Por Celso Moraes


Eis-me aqui para felicitar Clara Dawn por seus textos bem urdidos em Sofia Búlgara e Tabuleiro da Morte, livro de crônicas publicadas no DM Revista do Diário da Manhã. Engraçado que, à medida que vou escrevendo cada vez menos meus próprios textos – e sei que longe não está o dia em que cessarei por completo minha produção, por pura falta de resposta à pergunta “Para quê?” –, vou lendo cada vez mais os de Clara Dawn. E gostando. Creio que, na linha imaginária do tempo que tudo destrói, meu fim se entrelaçará à sua continuidade. Que seja.
   
Vamos às crônicas. Gostei imensamente de “O Chaplinesco”, o início “Perto, muito perto”, numa resposta ao clichê do “longe, muito longe”, tão comum e cansativo dos contos de fadas. A descrição minuciosa do cenário faz com que a gente “veja” o vilarejo com os olhos de nossa mente, e chegamos a acreditar – mercê do pacto de leitura – que tal lugar existe. Um lugar de antíteses, expressas aqui e ali, como na expressão “esgoto adentro e rio afora”.
 Interessantes as palavras derivadas do nome do criador do imortal Carlitos. O adjetivo “chaplinesco” e o verbo “chaplinescar” trazem à memória o andar bamboleante do inesquecível personagem, e eu cheguei mesmo a “vê-lo” na inglória luta com a sua sopa de sapato.
   
Singular vilarejo, que se permite o luxo de ter uma mini réplica da igreja parisiense de Val-de-Grâce; imagine-se a quietude e a tranquilidade desse lugarejo, um verdadeiro Vale da Graça, que só não é perfeito, apesar da ruína, porque ali “sempre chove”.
   
Trata-se de uma crônica/conto em que, mais importante que a ação, é fundamental a descrição do panorama e a construção psicológica dos personagens. O pedinte que “não usava botas de borracha e tampouco possuía um guarda-chuva” é um primor de criatividade, sentado na calçada a filosofar com a propriedade de um Rousseau. Seu vocabulário, erudito e rico, contrasta com a ideia que se tem de um mendigo interiorano. Mas, a bem da verdade, aqui mesmo em São Luís de Montes Belos há um sujeito maltrapilho que vaga pelas ruas e discorre com propriedade acerca de assuntos complexos, e outro que, a par de vender certo produto alimentício, aparentemente é um expert em Química, sabendo de cor a tabela periódica (!). Vida imitando a arte, e vice-versa.
   
O fecho do texto, o diálogo à primeira vista pleno de nonsense, encerra de forma incisiva o texto, deixando o leitor comum a se perguntar “que parte eu não entendi?” ou mesmo “há algo mais para se entender aqui?”.
    
Sobre o texto “A sombra da hora doze”, começo fazendo uma observação que, para os não-iniciados, poderia parecer estranha ou pouco lisonjeira, mas que é justamente o contrário: o título me lembrou o de um filme de terror, “A hora da zona morta”. Ocorre que o filme é um clássico, eu o adoro e revejo de vez em quando, e acho o titulo uma das melhores sacadas de todos os tempos em termos de títulos fílmicos. Ou seja, é o meu jeito torto de dizer que adorei o título dado por Clara àquela crônica tão intimista. Intimista porque trata de um momento pelo qual a gente passa e que encerra tanta ternura (e, não raro, sofrimento): remexer guardados, tranqueiras, velhas fotos. Identifiquei a “Tatá, tão pequenina, gorda e bochechuda”, na Thálita Miranda, hoje linda e certamente dona de uma personalidade interessantíssima, tendo puxado a mãe. Já do “Tuco”, o Arthur, não dá para não gostar de um cara que, em garoto, soltou pipas e as achava “a coisa mais linda do mundo”.
   
Há coisa de uns dois meses, fui dar uma arrumada nas minhas bagunças e dei de cara com um maço de cartas e cartões, amarrados com uma fita vermelho-paixão. Abri e me senti mal, ao mesmo tempo em que me senti bem e, ainda simultaneamente, engasguei com um bolo invisível na garganta. Eu que quase nunca choro, às vezes choro fácil demais.
   
Eram cartas e cartões de minha ex-esposa. A maioria, declarações de amor. Da maioria, eu nem lembrava. Nós dois, que acabamos por nos desamar aos poucos, será que realmente nutrimos tamanho sentimento, que ex colocou em palavras de forma tão espontânea? Uma delas chamou a minha atenção: depois de dizer que outras palavras seriam inúteis para expressar seu sentimento por mim, escreveu “eu te amo!” mil vezes (!), de forma manuscrita, uma a uma! Como pode ser que hoje não signifiquemos nada além de sócios na paternidade/maternidade de nossos filhos? Como mudamos tanto?
   
O que eu quero dizer com isso é que o texto “A sombra da hora doze” mexeu comigo. É isso, um texto literário deve inquietar o leitor. Obrigado, Clara Dawn por tê-lo escrito. Sobretudo o trecho “Como, pois, conceberemos a felicidade? Uma vez que esta se revela, tal qual a sombra da hora doze, e por estarmos sobre ela, nunca a enxergamos?”
   
Na crônica “Os gonzos do mundo”. Gostei do título. Mas, confesso, à medida que prosseguia a leitura, nas duas primeiras colunas, fui me desiludindo. Não gosto de chuchu – como “gostar” do que não tem gosto? Até etimologicamente é estranho. E, decididamente, a ideia da velhice se me afigura como o maior dos terrores. Algumas palavras, como a que Clara usou, “flácida”, levantam um vergão metafórico no meu rosto como se fossem chicotadas simbólicas. Aquela que foi uma das mulheres mais belas de nosso país, Tônia Carrero, disse que “a velhice é a prova maior de que o inferno existe, e começa aqui mesmo”. Concordo. A velhice me assusta. Mas a alternativa é igualmente aterradora. O antídoto para o envelhecimento, morrer jovem, nos priva de tanta coisa, mas, por outro lado, eterniza a pele livre de rugas e flacidez. Escrevo olhando para um pôster enorme de James Dean, na minha parede. Ele se foi jovem, deixou três filmes que viraram clássicos, e permanece na lembrança dos fãs como um eterno garoto. Rebelde, arrogante, belo e nem um pouco fã de tomar banho (será moda? Antonio Banderas, dizem, segue a mesma linha...).
   
Mas voltemos ao texto. O chuchu (ainda estava na segunda coluna) me desgostou a ponto de me fazer perder o apetite pelo bolo de fubá e pelo pão de queijo sobre a mesa descritos mais adiante na mesma crônica. Mas então, pelo menos para mim, a salvação veio na terceira coluna, com as divagações acerca da teia de aranha. Que figura, a teia! Trabalhei essa imagem em Filosofia com meus alunos, e é inesgotável o que se pode tirar dela. Para aumentar meu interesse, percebi uma palavra usada por Clara em nossas correspondências pessoais – “intencionalidade” – e a leitura se tornou, de súbito, prazerosa.
   
A quarta coluna já dá a dica de que algo não está certo, com a plantação sem cuidador. Mas, e Dona Penélope? Com cuidado, continuei a ler, detendo-me em cada palavra, virando-a do avesso, olhando embaixo dela, como quem busca uma nuance a princípio despercebida num objeto tridimensional. O verbo “vampirizar” fez correr pelo meu corpo uma descarga de agradável eletricidade emocional, os vampiros são as criaturas que eu mais amo, entre as supostamente fictícias. A sugestão de que Dona Penélope estaria “desatenta” revela que há algo mais ali. E, então, a gente descobre a razão de ser daquela crônica.
   
O Narrador não chorava pelo inseto acasulado. Tampouco chorava pela avó que se fora. Não choramos pelos defuntos que em vida nos foram queridos, no final das contas. Penso que choramos por nós mesmos, por nossa solidão, por estarmos presos a esta vida enquanto eles foram singrar os mares inefáveis do infinito. Na verdade, choramos mais por egoísmo do que por qualquer coisa. Parabéns, Clara Dawn, também por esse texto que só revela a verdadeira “intencionalidade” na última coluna, disfarçado entre insípidos chuchus e pés de arruda.
   
Na crônica “Não recebo mais visitas” de início, fiquei na impressão de se tratar de um amor, mas imediatamente me dispus a não cair nas armadilhas de Clara! E os olhos verdes remeteram-me de imediato ao verde daquele papagaio de outra crônica dela. Fiquei entre achar que se tratava de um homem ou de um bicho.
   
Mas conforme a leitura avançava, fui me convencendo de que se tratava de um macho da espécie humana. Clara soube me despistar, eu que já me encontrava na pista certa. Coisa de escritora que sabe o que faz. E quando ela disse que ele se sentou num canto da praça, visualizei a imagem de um sujeito de pele clara e olhos verdes sentado no banco da tal praça, sem que me ocorresse que ele estar sentado no canto da praça não quer dizer, necessariamente, que ele está sentado num banco! Caramba, ela me pegou, no final das contas ela me pegou...
   
No fim, não era um papagaio, nem um homem, mas um pit bull de nariz vermelho, que já virou marca de roupas e acessórios e capas de caderno. Entrego os pontos, pode abrir a champanha, Clara (ou o champanhe, champagne, como queira). Venceu-me, com sua pena oblíqua e dissimulada, como diria o Bruxo do Cosme Velho. Descobri que gosto mais do seu estilo do que achava que gostava. Gosto de ser surpreendido. Até mesmo enganado, no bom sentido. Gosto de te ler.
   
Em suma, faço como nosso saudoso Reynaldo Jardim: comparo Clara Dawn à imortal Clarice, mas principalmente pelo hermetismo. O que ela quis dizer, ou disse em Sofia Búlgara e o Tabuleiro da Morte? Eu interpretei de duas formas: uma, universal, dirigida a toda a Humanidade, e outra, lispectoriana, direcionada apenas a quem se sabe destinatário de cada crônica. E não sei se alguma dessas interpretações é correta, ou ambas, ou nenhuma. Mas gostei muito. Até aqui, tenho gostado de cada coisa que Clara Dawn escreveu. Agradeço pela oportunidade de ler essa autora e tecer modestas considerações acerca da mesma. Longe de mim fazer um arremedo de crítica literária, são meramente opiniões de um leitor “paisano” e encantado.

*Celso Moraes é professor de Língua Portuguesa na cidade de São Luís de Montes Belos

terça-feira, 22 de novembro de 2011

EM DEFESA DE CLARA DAWN E DA LITERATURA GOIANA - por José Fernandes*

Crítica literária é coisa muito séria. Requer profundos conhecimentos das mais variadas áreas do saber e, sobretudo, da arquitetura do discurso artístico. Há gêneros literários, entretanto, que a requerem ainda mais acurada. A crônica, pela multiplicidade de faces e de máscaras que escondem e revelam e pelo caráter estético que a singulariza, ou pelo efêmero do momento, requer mais sabedoria do crítico, a fim de que não fale asneiras!
           
 – Essa aula está boa, mas onde você deseja chegar com esse intróito!
           
– Desejo dizer que na crônica se pode discutir arte, filosofia, política, sociologia, antropologia; enfim, todos os ramos do conhecimento. E exatamente por isso, exige ciência para ser criticada e, não, fazer-se um mero comentário audacioso e, sobretudo, que demonstra despeito e desrespeito à figura do cronista, como uma tal Márcia Brasil fez às crônicas de Clara Dawn!
           
– Mas, o senhor e, mormente, a sábia cronista, não deveriam se preocupar, porque, pelo que se observa no invejoso comentário, a autora sequer sabe escrever: veja a virgulação empregada pela infeliz; o início de períodos com pronome átono; a estrutura estropiada das frases... Isso é suficiente para desqualificar sua crítica de analfabeta funcional e, notadamente, de mal amada ou mal-armada, e, sobretudo, de despeitada! Analfabeta, porque sequer conhece a Bíblia, por achar que Moisés, do Antigo Testamento, salvou os hebreus de Herodes, do Novo Testamento, em vez de tê-los salvado da fúria do Faraó Ramsés II. Como suas colocações demonstram total despreparo psicológico, psiquiátrico, linguístico, numênico e fenomênico, Clara não tem razão nenhuma para se preocupar com essa figura troglodita.  
           
– Mas, primeiro, as crônicas de Clara, além de se aprofundarem em problemas intrincados da existência, como o fez Clarice Lispector, ou apresentarem forte percepção lírica, rara nesse mundo materializado, como o fizera Cecília Meireles, ainda se erigem sobre um discurso altamente estético, à medida que interage com a poesia, através de imagens situadas naquela imaginário teorizado por Bachelard e Durand. A imagem empregada, por exemplo, para descrever a alegria do dia nascituro ao som da inimitável Piaff, bastaria para elevar a sua crônica, “Travessuras róseas”, ao poético: “Mas naquela madrugada ousou o fino trato musical deixando-me sustenida pela eterna e meiga voz de Edith Piaf. A transposição do vocábulo “sustenida” da estrutura musical para o ser do narrador, conforma-o a outra dimensão semântica e confere-lhe uma notação metafísica, uma vez que o narrador se insere no sublime de “La vie en rose”.
           
– Pois é, professor, mas se ela não sabe escrever, certamente se sentiu ferida pelo desprezo à matéria do supra-sumo do mau gosto musical, representado pela dupla sertaneja. Além disso, sem dúvida, ela jamais ouviu falar de Edith Piaff, gênio da canção francesa. Depois, quem não sabe a língua-mãe, muito menos entenderá o francês piaffiano!
           
– Seu Ângelo, o senhor está sendo duro demais com essa disfarçada em pseudônimo, pois, pesquisando em todos os meios de comunicação escrita ou falada, inclusive nos cibernéticos, não descobri quem é essa senhora. Ex-BBB não deve ser, embora ela se situe no mesmo nível daquele pessoal contemplado com milhões pela incultura nacional, a que ela representa com todas as letras! Acredito que uma paulista, jornalista, não deve ser. Se for, que a carapuça se lhe adéqüe, com todos os babados, à cabeça!
           
– Mas, a fulaninha é extremamente ousada em seu nenhum saber, pois coloca todos os autores, novos e velhos, canônicos e não canônicos, “matres genitrices” da cultura goiana, no lixo!
           
– Estou chegando à conclusão de que essa Márcia Brasil sofre de “delirium tremens”, para não dizer loucura varrida, pois nada conhece da literatura dos goiazes, uma vez que nunca leu Gilberto Mendonça Teles, Bariani Ortencio, Miguel Jorge, José Mendonça Teles, Hélio Moreira, Licínio Leal Barbosa, Gabriel Nascente, Hélio Rocha, Brasigóis Felício, Lacordaire Vieira, Edival Lourenço, Luiz Augusto Sampaio, Luiz de Aquino, Heleno Godoy... e até Anatole Ramos, que fazem parte da coleção Goiânia em Prosa e Verso e que também foi pro lixo.  
           
– O pior de tudo é que, além de néscia, palavra muito nobre para substituir DMP – distúrbio mental permanente, ou BP – burrice permanente –, usa daquela má-fé de que fala Jean-Paul Sartre em seu famoso “L’être et le neant”, porque, pelo que tudo indica, se esconde atrás de um pseudônimo. Ninguém, em sã consciência, escreveria uma asnice tamanha com relação a Clara Dawn e, muito menos, com relação a uma literatura que, além dos nomes por ela postos no lixo, ainda se orgulha de possuir escritores da estirpe de Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Élis, José J. Veiga, Cora Coralina, Yeda Schmaltz, José Godoy Garcia, Leo Lince...
           
– Será que ela sabe, por exemplo, que além do Miguel Jorge, que vai lançar o seu “Veias e vinho”, traduzido para o italiano com o titulo de “Sangue e vino”, nas cidades de Leonardo Da Vinci, Tito Lívio, Dante e de Plínio, o moço, a obra poética de Gilberto Mendonça Teles já foi traduzida para o francês, o espanhol, o búlgaro, o italiano, o chinês, o japonês, inglês, e a de José J. Veiga, para o sueco, dinamarquês, espanhol, norueguês, inglês. Se fossem lixos, como essa senhora desequilibrada o diz, os cultores de Cervantes, de Dante, de Shakespeare, de Rabelais, de Kafka, de Joyce, lê-los-iam?
           
 – Não é sem razão que ela se chama, ou se auto-nomina, Márcia Brasil, porque é imagem e matéria da incultura, da corrupção, do descaramento que viceja nestes brasis. Basta-se ver o ENEM “et caterva”! 
           
 – Eh! Só nos resta rezar por ela: Veni Creator Spiritus, mentem Maciae visita!    
                                  


* José Fernandes é membro da Academia Goiana de Letras – thjfernandes@gmail.com

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Casa - por Gilberto Mendonça Teles


Lá Sebastiana de Pablo Neruda

"Estimada Clara  Dawn,

você me surpreende a cada dia. Desta vez duplamente: pela dedicatória da cronica e, mais que ela (a dedicatória), pela beleza do seu texto. Você deve ser a primeira em Goiás a escrever uma crônica com a natureza poética da crônica. Linguagem e metalinguagem sem pedatismo, narrando poeticamente a "construção" dessa parede (dessa casa) maior que o mundo, eterna pela força poética da linguagem. Os teóricos de Goiás têm de conhecer e louvar a sua "Parede". Quando a li, lembrei-me de um poema meu "A Casa", em & Cone de sombras (1995), onde me valho de  expediente parecido na construção de um poema:
                                                                    
A CASA
                                     
De madeira de lei, a casa
 tem sua lógica, seu prumo:
 risca-se um nome e o que se traça
 é parte viva do conjunto.

Na expectativa de apreendê-la
algo se dá e se edifica:
finca-se o esteio de aroeira
e ergue-se um céu de pau-a-pique.

Na cumeeira, abrindo as asas,
a profusão de sol e festa:
caibros e ripas — a sintaxe
e a enunciação da viga-mestra.

No chão batido, a sombra e o cheiro
da palavra verde enlaçada;
e no ar, a ponta de um novelo
prendendo a música da flauta.

Nalgum lugar uma janela
do novo espaço se articula,
como se do ermo da matéria
brotasse um ramo de leitura.

E o que se deu se abre e se alinha
na execução de seu projeto,
enquanto a palavra sucinta
se faz vertical, como um cedro".

                                O abraço agradecido do Gilberto Mendonça Teles

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Crítica negativa a cultura goiana e a Clara Dawn - segundo Márcia Brasil

Foi publicado no Diário da Manhã - Opinião Pública - página 08, dia 27/10/2011 (Quinta-feira) o seguinte texto:

Crítica a literatura goiana – por Márcia Brasil (Publicada na Opinião Pública – DM – página 08 no dia 27/10/2011)

“Não há nada nesse planeta que alguém possa me dizer, que já não tenha passado pela minha cabeça. Um monte de lixo emocional, essas crônicas da que se diz "romancista" clara dawn. Porém, algumas pessoas abitoladas como essa pobre professora Fátima, acabam deixando  sentar  na mente, pensamentos de caridade em relação a literatura provinciana de uma cronista mais provinciana ainda. Me admira muito um jornal com Diário da Manhã que é lido no Brasil e no exterior alimentar esse tipo de coisa. Me senti diretamente ofendida  quando a tal professora, comparou clara dawn a Anatole Ramos e Marieta Telles. Aposto que ambos se reviraram em suas sepulturas.   Esse tipo de elogio é muito irritante. É o desejado  pontapé que às vezes salva uma pessoa do fundo do poço existencial e eterno! Talvez seja esse o caso "claradawniano". Talvez, ela, em seus fracassados rabiscos, esteja necessitando mesmo de uma salvadora de benjala. Algo que lembre Moíses e o seu velho cajado, mas ao contrario do povo que Moises salvou do Rei Herodes, o máximo que clara conseguirá com sua literatura primária e mal escrita, é um pouco de bajulação de seus pares e fãs incultos. Geralmente, só quem tem coragem (ou seriam colhões) suficiente é capaz de verbalizar as verdades-verdadeiras sobre essa literatura que vem sendo produzida a torta e a direita em Goiânia, como se fosse chuchu - tantos, tantos e tão sem graça. 183 mil lixos numa única lixeira - ops, "livros" lançados de uma vez só. Essa coisa tem que ser mudada, repensada ou deletada da história da literatura goiana. Acorda minha gente!" Márcia Brasil
Segue abaixo a resposta de Clara Dawn e alguns comentários enviados por E-mail:


"Às sete horas da manhã, como é o meu costume, leio os jornais. Ao ler 'Crítica a literatura goiana', segundo Márcia Brasil, publicada na quinta-feira 27/10,  eu ri. Fechei o jornal e fui escrever minha crônica tranquilamente, como é o meu costume na quinta-feira. Na quinta-feira sou inalabalável! Clara Dawn





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"Clara, agradeça à Márcia Brasil, ela é muito ruim de análise e crítica. Não responda, deixe que ela meta o pau, (ela pensa que é grande, mas é muito pequenininha), ela ajuda a divulgar o seu trabalho e faz com que pessoas, como eu, me lembre do quanto o texto de Clara é bom, faz-me lembrar do quanto o texto de Fátima Santana a seu respeito foi bom e relevante. Liga não, liga sim. Beijos e bons escritos." Ítalo Francisco Campos
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"Sobre a matéria publicada no DM-Opinião de domingo 23/10. Um olhar estrangeiro sobre Clara Dawn e suas crônicas publicadas no DM. Só agora eu vi. Estava viajando. Espero que não seja tarde para comentar. Vamos lá: " Não há conquistas fáceis. São as estradas sinuosas que levam ao caminho certo. O profissional, em qualquer ofício, alcançará o triunfo a partir de um espírito tenaz, forte, obstinado. Vejo em Clara essa pessoa, essa mulher que experimenta a celestial sensação de estar sendo um pouco reconhecida. Isso a torna perigosa de um crime ediondo: mulher, jovem, bonita e inteligente em destaque por seu trabalho de escrita profissional. Nada bom, para Clara Dawn. Embora pareça que é. Eu não tenho nada contra o crime que ela está cometendo, nada contra ela ser uma mulher que sabe escrever, contar histórias e chamar a atenção por suas carapuças que cabem em tantas cabeças. Mas, sei ver que o elogio, a mídia, os amigos os que idolatram poderam persegui-la, ameaçá-la, tachá-la, matar a sua arte se quiserem. Retalhar seus versos, deixá-los expostos pra servir de plágio. Clara agora pode resistir ao mais feroz dos tempos? A ira, ao pior julgamento, a inveja e crítica negativa? Tão jovem, pode? A revide virá e essa de Márcia Brasil é apenas o começo. Espero que Clara renasce e brota nova rosa. Atravesse a história e se for queimada viva, condenada por ser quem é, se descer ao fundo do inferno por causa de seu talento. Que ela  não tema nada e retorna inteira, maior, mais larga, Claramente mais obstinada. Parabéns". Poeta Waldomiro Prado

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"Não conheço Márcia Brasil, mas conheço a Clara Dawn e sou testemunha de sua grandeza literária.
Ela está de parabéns pelo seus belos textos, sua projeção, inclusive no exteriore destacando também o valor da mulher na literatura goiana e brasileira. Abraços." Maria Loussa

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"Não conheço essa pessoa "Márcia Brasil" e talvez ela entenda tanto de literatura quanto eu entendo de navegação cósmica, ou seja: nada! Não se preocupe com essas bobagens. "Só as árvores que produzem frutos é que levam pedradas", já ouvi alguém dizer. Sua literatura é segura, bem feita e possui uma leveza e clareza que faz bem a quem a lê. Lembro de uma professora (que se deram ao trabalho de publicar num jornal) criticar UM livro de UM autor goiano e condenar TODA a literatura goiana só porque não gostou do livro. Muito engraçado. Muito mesmo. Existem bons críticos, como Emir Monegal, críticos medianos, e péssimos críticos que não conseguem nem ler direito um autor, imagem fazer uma crítica bem feita. Quando muito, isso pode ser "invejazinha provinciana", como diria o escritor Brasigois Felício, de quem não consegue escrever e começa a querer derrubar os  outros. Ela, com toda a certeza do mundo, deve ter lido as 138 obras publicadas pelo projeto da prefeitura de Goiânia e, com toda a profundidade do mundo, pôde analisar cada uma delas e condená-las como lixo!!! Nós que criamos, que escrevemos, estamos condenados a ouvir umas bobagens como estas, mas prefiro ser um mau escritor a ser uma "excelente" crítica como esta. Abraços" do Elias Antunes.

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"Clara, não dê importância a isso. Essa pessoa, se ela existe, quer aparecer à custa de uma crítica barata e fajuta. Ela está chateada com o mundo e, consequentemente, com os escritores goianos. Como a carta foi por e-mail, pode ser um nome fictício de algum recaldado. Eu li a carta e cheguei a essa conclusão. Realmente, deixa a gente chateado". Hélverton Baiano

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Clara Dawn na "Revista Hoje"













Edição 57, Ano 5, Setembro - 2011
"Culturamix" página 48
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Um olhar estrangeiro sobre a obra de Clara Dawn - Segundo a professora e crítica literária *Fátima Santana

A recepção da literatura brasileira no exterior tem sido estudada no mundo acadêmico, mas ainda é umassunto pouco divulgado. Há poucas publicações que analisam a maneira como os autores brasileiros são lidos fora de seu local de produção.
Eu acabo de ser jubilada pela FLUC – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde trabalhei por mais de três décadas. O jubileu não é espantoso quanto  pensa os parceiros do oficio de educar. Não quando se pode voltar à terra natal e contemplá-la na magnitude de ações culturais, especialmente da literatura. Literatura, meu material de vivência e estudo de uma vida inteira. Literatura: jamais me canso de ti!
E é por razão de nunca me cansar que estou sempre recebendo presentes: livros,  evidentemente. Dezenas chegam pelos correios, outros tantos me são regalados por amigos e parentes. Não preciso comprar-los, os livros me chegam a mim. Foi num desses tantos, que recebi, o ano passado, “Alétheia” de Clara Dawn. Li, gostei, esqueci. E esse ano dentre muitos outros que me foram regalados, recebo “Sofia búlgara e o tabuleiro da morte” também da, esquecida (por mim), Clara Dawn. Li, gostei, me incomodou. Assim eu resumo em poucas palavras a minha singela observação da obra da “concreta e inacabada” literatura Claradawniana e tentarei, por vez, dissertar na sintaxe do português brasileiro.
 Clara Dawn desenvolveu um estilo literário ímpar. Com livros marcados por singularidades e inovações linguísticas, a escritora se encaixa a lista dos que incorporaram traços inéditos à literatura brasileira produzida em Goiás.
A ficção claradawniana se concentra nas regiões mais profundas do inconsciente, ficando em segundo plano o meio externo, pois quase tudo se resume à mente das próprias personagens. Portanto, Clara Dawn é o nome de uma tendência intimista a literatura escrita em Goiás. O ser, o estar no mundo, o intimismo formam o eixo principal de questionamentos tecidos em seus textos introspectivos de prosa-poética. Não centra sua obra no social, no romance engajado, mas sim no indivíduo e suas mais íntimas aflições, reproduzindo pensamentos das personagens.
Artifício largamente utilizado por James Joyce, Proust e, sobretudo, Virgínia Woolf. O fluxo da consciência marca indelevelmente a literatura de Clara Dawn. Tal aspecto consiste em explorar a temática psicológica de modo tão profundo que o assunto nunca é completamente explorado, ou seja, as diversas possibilidades de análise psicológicas e a complexividade da temática contribuem para a inesgotabilidade do assunto. O fluxo da consciência indefine as fronteiras entre a voz do narrador e a das personagens, de modo que reminiscências, desejos, falas e ações se misturam na narrativa num jorro desarticulado, descontínuo que tem essa desordem representada por uma estrutura sintática caótica. Assim, o pensamento simplesmente flui livremente, pois as personagens não pensam de maneira ordenada, mas sim de maneira conturbada e desconexa. Portanto, é a espontaneidade da representação do pensamento das personagens que caracteriza o caos de tal marca literária.
O monólogo interior é outro artifício utilizado por Clara Dawn que contribui para a construção da atmosfera introspectiva. Essa técnica consiste em reproduzir o pensamento da personagem que se dirige a si mesmo, ou seja, é como se o “eu” falasse pra si próprio. Registra-se, portanto, o mergulho no mundo interior da personagem, de suas crônicas, a “Neura” que revela suas próprias emoções, devaneios, impressões, dúvidas, enfim, sua verdade interior diante do contexto que lhe é posto.
Não se deve afirmar que Clara Dawn seja a pioneira no emprego da epifania na prosa  da literatura de Goiás. “No sentido literário, a "epifania" é um momento privilegiado de revelação, quando acontece um evento ou incidente que "ilumina" a vida da personagem.” O que acontecia de modo peculiar e brilhante nas crônicas de Anatole Ramos e Marieta Telles. Anatole em "Fazendeiro que Dedurou os Bispos (1978)" com os flagrantes do cotidiano, os problemas, as alegrias, os protestos, os sonhos e as esperanças de todos nós e Marieta Telles Machado que era cronista por excelência, transitava pelas áreas da literatura epifânica  nos anos de 1980. Não havia genialidade em ambos, eles não escreviam para a elite ou para a plebe, crônicas dirigida ou bitoladas. Apostavam na linguagem,simplesmente,  compreensível para quem sabe ler, sem poses, sem afetação, pobre de hermenêutica, mas ricas de espiritualidade social.
Mas posso, assim, dizer que nos textos de Clara Dawn ela consegue impor genialismo a simplicidade e o seu objetivo maior é o momento da epifania: por meio de uma espécie de revelação (o que se dá por meio de um fato inusitado), a personagem descobre que vive num mundo absurdo, causando um desequilíbrio interior que, por sua vez, provocará uma mudança radical em sua vida ou não. Honestíssima, espirituosa, imaginosa e de raciocínio célebre, Clara salta num átimo de tempo de poetisa dos valores morais, de contador de histórias acriançadas a embaixadora da alegria e da surpresa. O fator surpresa é inevitável aos escritos de Clara Dawn
É também peculiaridade da autora a construção de textos inconclusos e outros desvios da sintaxe convencional, além da criação de alguns neologismos. Clara Dawn não adota o padrão da gramática normativa, pois tem na valorização da expressividade do texto a regra primordial de sua literatura. Assim, as frases não são feitas com o rigor gramatical e coerente, mas sim com o primor e o viço da expressão artística.  Assim, podando os excessos e desconsiderando os modismos, Clara Dawn desponta entre os melhores escritores da literatura brasileira produzida em Goiás.
Clara Dawn tem uma significativa produção como cronista em periódicos regionais. Reunidas no livro “Sofia búlgara e o tabuleiro da morte”, Kelps, Goiânia, 2011.  Clara escreve crônicas como num ritual romântico e fez um romance cronicamente.  Que Deus me dê vida para ver Clara erguendo tijolos, colunas e teto. Parabéns. (Ensaio publicado no Diário da Manhã - Opinião Publica - página 04. Dia 23/10/2011 - Goiânia - Goiás)





*Fátima Santana é professora, jubilada, dos cursos de “História da Arte e Literatura da Língua Portuguesa” da FLUC – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra – Portugal